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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Que espetáculo, Ariano Suassuna! Que espetáculo!


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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 2h10min
Data: 11 de julho de 2013
Local: Camocim de São Félix - PE
Ocasião: Tributo ao músico / compositor Capiba

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h17min
Data: 10 de maio de 2013
Local: Centro de Convenções Divaldo Franco,
Vitória da Conquista - BA
Ocasião: Abertura do Festival da Juventude de Vitória da Conquista

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h03min
Data: 20 de março de 2013
Local: Centro de Eventos Brasil 21,
Brasília - DF
Ocasião: 1ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Regional

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h04min
Data: 18 de abril de 2012
Local: Auditório Ministro Mozart Victor Russomano, 
Tribunal Superior do Trabalho, Brasília - DF
Ocasião: Inauguração do referido auditório

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h44min
Data: 29 de setembro de 2011
Local: Milenium Centro de Convenções, 
São Paulo - SP
Ocasião: Homenagem ao Dia do Professor,
organizada pelo SINPRO-SP

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 50min
Data: 13 de setembro de 2011
Local: Auditório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA),
Brasília - DF
Ocasião: Comemoração do 47º aniversário do IPEA

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h26min
Data: 30 de abril de 2011
Local: SESC Vila Mariana, 
São Paulo - SP
Ocasião: Não informada

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h25min
Data: 04 de junho de 2008
Local: Tribunal de Contas da União,
Brasília - DF
Ocasião: Não informada

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Modalidade: Aula / Espetáculo / Palestra
Duração: 1h35min
Data: 07 de maio de 2007
Local: Palácio do Itamaraty, Rio de Janeiro - RJ
Ocasião: Não informada

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Modalidade: Entrevista
Duração: 1h25min
Data: 06 de maio de 2002
Local: TV
Ocasião: Programa Roda Viva

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um convite para conhecer José Pacheco

É preciso conhecer José Pacheco, para quem “as comparações e os rankings são disparates” ou, ainda, “os professores [...] deveriam procurar caminhos de alforria científica e a sua maioridade educacional, sem prescindir do que venha do estrangeiro” porque, na maioria das vezes, “novidades importadas não passam de inovações requentadas”. Na entrevista que concedeu à Notícias Magazine, em abril de 2017, muitas são as chamadas para reflexão sobre a profissão professor, ensinar e aprender, a mudança de que a escola necessita etc., dentre as quais destaco:
  1. “Apercebemo-nos que o maior aliado de um professor é o outro professor, mas, também, que o maior inimigo de um professor que ouse fazer diferente para melhor é o professor da escola do lado [...]”;
  2. “A aprendizagem é antropofágica. Não se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro. Um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. Poderá acontecer aprendizagem em sala de aula, se forem criados vínculos e esses vínculos não são apenas afetivos, também são do domínio da emoção, da ética, da estética...”;
  3. “O sistema somos nós. Que rigor e que exigência existem num modelo educacional no qual alunos do século XXI são ‘ensinados’ por professores do século XX, que recorrem a práticas oriundas do século XIX?”;
  4. “[...] a profissão de professor não é um ato solitário, mas solidário. [...] o trabalho em equipa pressupõe um permanente convívio, estabilidade e lealdade a valores e princípios de um projeto [...]”;
  5. “O professor assume dignidade profissional, sendo autónomo-com-os-outros. Porque um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. E enquanto o exercício da profissão não se pautar por critérios de natureza pedagógica, enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os professores continuarão a ser considerados os ‘bodes expiatórios’ dos males do sistema”;
  6. “São muitos e diversos os caminhos de mudança, sendo urgente que os educadores compreendam o que significa o termo ‘currículo’. É preciso experimentar um novo modo de organização, em equipas de pessoas autónomas e responsáveis, todas cuidando de si mesmas e de todo o resto, numa escola realmente ‘pública’. Não negando o potencial da razão e da reflexão, juntar-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. E uma escuta que, para além do seu significado metodológico, terá de ser humanamente significativa [...]”;
  7. “É preciso apenas que haja gente, educadores conscientes da necessidade e possibilidade de mudança, que se constituam numa equipa de projeto. Que saibam escutar sonhos e necessidades da comunidade em que estejam inseridos. E que ajam em função da lei e da ciência. Não há duas escolas iguais, nem acredito em modelos.”

quinta-feira, 20 de julho de 2017

De Hélcio Pereira da Silva, "Lima Barreto, escritor maldito" (1976; 1981)

Leio na 10ª edição de “A vida de Lima Barreto” (2012), biografia escrita por Francisco de Assis Barbosa entre 1946 e 1951 e publicada no ano seguinte, que em outras obras da década de 70 o perfil biográfico desse autor é traçado:
O meu velho companheiro de A Noite, dos bons velhos tempos, Carvalho Netto, publicou em 1977 o seu livro de memórias, Norte: oito quatro, em que traça um excelente perfil de Lima Barreto, de quem foi amigo. Há ainda, a registrar os livros de cunho popular: o de H. Pereira da Silva, Lima Barreto, escritor maldito (1976) e o de João Antonio, Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1977). (BARBOSA, 2012 [1981], p. 23).
Certamente, compará-las permite adentrar mais ainda a literatura barretiana, a qual, como se sabe, mostra-se aqui e acolá autobiográfica. E, em se tratando desses “biógrafos”, coetâneos de Lima Barreto, curiosidades parecem esperar por sua revelação na leitura ávida daqueles que a esse tipo de atividade costumam aventurar-se. 

Além disso, quando uma nova bio(blio)grafia sobre um autor é lançada, há de se verificar a sua filiação com as anteriores, sobretudo para compreender os deslocamentos narrativo-temáticos em virtude dos quais ela surge, no restabelecimento da vida e da obra a que se propõe cercar. Agora, em 2017, que a Companhia das Letras publica, de Lilia Moritz Schwarcz, “Lima Barreto: triste visionário”, por exemplo, a biógrafa esclarece:
Não há como passar pela história da vida de Lima Barreto e da recepção de sua obra sem ter ao lado, e quase como guia de viagem, o livro de Francisco de Assis Barbosa publicado em 1952: a primeira biografia completa de Lima. Ele também liderou [...] uma verdadeira operação editorial com o objetivo de trazer de volta ao público, na década de 1950, a integralidade dos textos do autor. [...]. (SCHWARCZ, 2017, p. 19).
Evidentemente, outras operações editoriais também são interessantes e necessárias. Como confrontar as várias edições de uma mesma obra, garimpando aquilo que se deixou perder na segunda em relação à primeira, e assim por diante. Afinal, o zelo que, na prática de edição, restabelece a voz autoral não a liberta de todo. Vejamos, a seguir, o caso de H. Pereira da Silva.

A obra "Lima Barreto, escritor maldito" foi publicada em sua primeira edição em 1976. Na capa, atribuída a Claudio Valério Teixeira, lê-se uma espécie de subtítulo ausente na segunda: “Malditos são todos aqueles que dizem verdades incômodas”. Não há indicação da editora. 


Sem ficha catalográfica, o próprio ano da publicação é informado na lombada, na folha de rosto e na última página (240), onde nota-se “Composto e impresso no Departamento Gráfico do M. A. F. C., Rua Aristides Lobo, 106, em julho de 1976.” e fixa-se a seguinte errata: “EM TEMPO: Alguns insignificantes cochilos de revisão passaram despercebidos. Entre outros, na página 59, leia-se: ‘Anchieta, pensamento luso’...”. Talvez a contracapa seja reveladora, para a identificação da editoria: nela, o livro acaba apresentado como o sétimo dos 10 vol. que compõem a “GALERIA DE RETRATOS PSÍQUICOS”, projeto de H. Pereira da Silva. 


Sua orelha, “Ninguém foi mais brasileiro que Lima Barreto”, não é assinada e desaparece da segunda edição (1981, agora pela Civilização Brasileira, INL-MEC), sendo substituída por uma de Modesto de Abreu, sem título. 

As dedicatórias também se alteram. Antes: “A Francisco de Assis Barbosa que ressuscitou Lima Barreto, Lázaro do esquecimento, este livro” e “À ausência da grande presença: minha mãe” – nesta ordem. Depois: “À ausência da grande presença: minha mãe”, “A Antonio Houaiss, Francisco de Assis Barbosa, R. Magalhães Júnior” e “À memória de M. Cavalcanti Proença, Osman Lins e (Mário) José de Almeida”.

Compõem-na, excetuando-se folha de guarda, de rosto e as dedicatórias (SILVA, 1976, p. 5, 7),
  • NOTÍCIA LITERÁRIA” do biógrafo (na próxima edição, “Notícia biobliográfica do autor”, com alguns acréscimos: a crítica de Gilberto Freyre – “Ótimo livro!”- e “Outros livros” de H. Pereira da Silva, devidamente relacionados) (p. 11-14);
  • PROFISSÃO DE FÉ”, uma seção epigráfica, depois sem esse título, na qual encontra-se um trecho literário do biografado: “Nunca, na minha vida, tentei coisa mais desinteressada do que escrever as minhas confusas emoções e pobres julgamentos; e nunca esperei desse meu ato senão aquilo que, entre nós, a literatura pode dar digna, limpamente” (p. 17);
  • A VEZ DE LIMA BARRETO”, espécie de apresentação da biografia, elaborado pelo próprio biógrafo (p. 21-27);
  • Dez capítulos, não intitulados (p. 29-222);
  • OBSERVAÇÃO”, ausente na edição posterior;
OBSERVAÇÃO: Em vida, Lima Barreto editou por conta própria, "TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA", "NUNO [sic] E A NINFA", em 1916. Viu seu primeiro romance, "RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA" publicado em Portugal pela Livraria Clássica em 1909 sem receber direitos autorais. Tirou, fazendo empréstimos, novas edições. Não tinha editor. O primeiro e único, foi Monteiro Lobato que, como vimos, pagou os direitos autorais de "VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ".
Foi tudo o que conseguiu. Agora faz a riqueza de qualquer editor. (p. 225).
  • SÍNTESE BIOGRÁFICA” (p. 229-235); e,
  • OBRA COMPLETA” de Lima Barreto (p. 239-240).

Quanto à segunda edição (revista por Nilza Morais, Heloisa Pires Mesquita e Luiz Augusto Pires Mesquita), a despeito do que já se revelou, sua capa é atribuída a "DOUNÊ sobre desenho de D. Ismailovitch".



Compõem-na, ao longo de suas 184 páginas, excetuando-se folha de guarda, de rosto, dedicatória e sumário (SILVA, 1981, p. 5, 7, 9),
  • "Notícia Biobliográfica do Autor" (SILVA, 1981, p. 11-14), semelhante à "NOTÍCIA LITERÁRIA" da edição anterior, com o acréscimo dos "OUTROS LIVROS" escritor por H. Pereira da Silva (Ibid., p 14):
Bacia das Almas (esg.)
Neuroses Coletivas do Século XX (esg.) 
Terra dos Papagaios (esg.)
Sobre os Romances de Machado de Assis (esg.)
Diálogos com Machado de Assis (esg.)
Maldito de Todos os Santos (peça teatral, esg.)
O Processo da Violência - Caso Herzog (peça teatral representada)
A Caixa de Fósforo (peca teatral)
Esquerda Festiva (peça teatral representada)
A Paisagem Urbana em Machado de Assis (Prêmio da Academia Brasileira de Letras)
  • "Miniprefácio à 2ª edição" (p. 15-16), escrito pelo biógrafo, com destaque para esse trecho, porque revelador da atividade editorial:
Agora, graças a Herberto Sales e Ênio Silveira, esgotada a primeira edição (por sinal graficamente descuidada não pelo autor, mas pelas deficiências materiais e revisão falha), temos a segunda em plena comemoração do centenário de nascimento do escritor redescoberto, "maldito" em vida, glorificado, afinal, bem-sucedido literariamente após longa espera. [...]. (Ibid., p. 15).
  • "Lima Barreto, Escritor Maldito e a Consagração da Posteridade - de Tristão de Athayde" (p. 17);
  • I a X (p. 17, 21, 41, 53, 67, 85, 103, 127, 141, 157 e 169);
  • "Síntese biográfica" (p. 173);
  • "Obra completa de Lima Barreto" (p. 181). 
Até o presente momento, essas são as únicas edições já publicadas. Toda a obra de Hélcio Pereira da Silva caiu em ostracismo. Raros os textos disponíveis na Internet, inclusive, que permitam a efetiva apresentação de sua vida jornalístico-literária. O mesmo talvez possa-se dizer de Carvalho Netto. Francisco de Assis Barbosa sobrevive no imaginário coletivo como o primeiro biógrafo expressivo de Lima Barreto, mas, sua literatura é desconhecida atualmente, cujos títulos encontram-se esgotados, a despeito de "Vida de Lima Barreto" (em sua 11ª edição). João Antônio, em contrapartida, ressurgirá em breve, resgatado pela Editora 34, conforme notícia d'O Globo (31/10/2016).

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Francisco de Assis. (1952). A vida de Lima Barreto. Notas de revisão: Beatriz Resende. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. 

FILGUEIRAS, Mariana. Nos anos 20 da morte do escritor João Antônio, material inédito será lançado em livro. O Globo, Rio de Janeiro, 31 out. 2016. Disponível em <https://goo.gl/dPsJJW>. Acesso em: 20 jul. 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritzs. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

SILVA, Hélcio Pereira da. Lima Barreto, escritor maldito. [S.l.: s.n.], 1976. 

______. ______. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1981.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Tem muita fruta podre entre a fome e o alimento*

Não conhecia Franciso de Assis Barbosa, de quem muito se tem falado ultimamente por ocasião do homenageado da Flip 2017. É dele a obra “A vida de Lima Barreto”, escrita, como observa, durante cinco anos (entre 1946 e 1951), entregue ao editor logo em seguida e publicada em 1952. Quando digo que não o conhecia, refiro-me, por exemplo, ao modo como lhe descreve o colega / amigo Otto Lara Resende, em “FAB ou Chico”. 

Impressionou-me saber não que “Lima Barreto ressuscitou na sua pesquisa” (isso já era de conhecimento público – ao menos, por parte de nós, professores de literatura), mas, como a própria pesquisa foi empreendida – nesse sentido, marcou-me muito ter lido seu “Prefácio da primeira edição” (1951) e suas notas “A propósito da quinta [e sexta] edição” (1974; 1981), além é claro da de Beatriz Resende “A propósito da oitava edição” (2002). 

A edição que eu tenho em mãos é a 10ª, de 2012, publicada pela José Olympio. Porém já folhei a 11ª, a cargo da Autêntica, não por acaso agora – lembrem-se: 2017 – FLIP – LIMA BARRETO – MERCADO. Qual a novidade? 

Obviamente, nesta edição, desapareceram textos presentes na da José Olympio quanto aos “Dados biobliográficos do autor” e o inventário de suas obras – estou tratando de Assis Barbosa, de cuja produção (dezesseis obras), a julgar pelos títulos, saltaram-me aos olhos cinco: “Os homens não falam demais”, “Testamento de Mário de Andrade e outras reportagens”, “Retratos de família”, “Machado de Assis em miniatura” e “Santos Dumont, inventor”. 

Obviamente, também, apareceram outros. Porque reedição tem disto: um morder e assoprar de carteira, em virtude do qual sai dolorido o leitor / consumidor – às vezes, enganado (é bom saber). Mas, o fato é que, à semelhança de um pinto no lixo, faço festa; e, à dona da casa (portanto, do próprio pinto e do próprio lixo e do que fazer com eles), incomoda-me saber da limpeza que me aguarda depois. 

Pois bem, vida às reedições! Aos achados! Porque, além das “Obras de Lima Barreto” tal como as organizou Assis Barbosa e outros, surgiram títulos até então inéditos – “Sátira e outras subversões” (2016, pela Companhia das Letras), por exemplo. Morte aos movimentos ludibriosos do mercado editorial! Há tantas Clara dos Anjos por aí, agora; tantos Triste fim de Policarpo Quaresma, que é preciso saber qual escolher. 

As barracas foram armadas. Tem muita fruta podre entre a fome o alimento. 

P.S.: Qualquer obra em domínio público é carne retalhada, salgada e vendida aos pedaços, para os mais distintos paladares. Tem disso também: gente que serve mal, gente que serve bem; gente que engole, gente que mastiga.
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* Mas, fruta é fruta - dirão alguns.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

#leiturasubjetiva

“Você está assistindo a
Sense8
Temporada 2: Ep. 2
Quem sou eu?”


- Sabe qual é o seu problema? [...]. Não está tentando entender nada. [...]. Porque rótulos são o oposto da compreensão. [...]. [...] o que coragem tem a ver com a cor da pele de um homem [, ou outro atributo, por exemplo]? Eu era só um garoto que adorava filmes. E os heróis que eu via faziam eu me sentir mais corajoso do que era. Mais engraçado. Mais inteligente. Eles me faziam sentir que podia fazer coisas que não achava que poderia fazer. Mas aquele garoto que assistia TV com a mãe, avó e tias não é o homem que virou ator, não é o homem que virou motorista [ou qualquer outro profissional, esse tipo de etiqueta]. O motorista [ou quem quer que reconheça como sendo eu] não é a mesma pessoa que você vê aqui.
- E quem eu vejo aqui?
- Quem sou eu? Quer dizer... De onde eu vim? O que um dia posso me tornar? O que faço? O que fiz? O que eu sonho? Quer dizer... O que você vê? O que eu vi? O que você vê ou o que eu vi? O que temo ou o que sonho? O que temo? O que sonho? Quer dizer quem eu amo? Quem eu amo? O que perdi? Quer dizer o que perdi? Quem sou eu? Acho que eu sou... Exatamente igual a você. Nem melhor. Nem pior. Porque ninguém nunca foi e nunca será exatamente igual a você ou a mim.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

De João Guimarães Rosa, SONHAÇÃO: POR QUE FOI QUE EU CONHECI AQUELE MENINO? [1]

[...]. Não sei ler as instruções, mas tenho-as no sangue, a paixão do recorte, da seleção e da combinação. [...]. [...] subverto a regra, desfiguro o mundo: uma roupa feminina sobre um corpo masculino, e vice-versa. Compondo [...], acabo por aceitar a fatalidade [...]. Nada se cria. [...]. // [...]. Construo um mundo a minha imagem, um mundo onde me pertenço e é um mundo de papel. // [...]. Porque minha leitura não é monótona nem unificadora; ela faz explodir o texto, desmonta-o, dispersa-o. [...]. (COMPAGNON, 1996, p. 9-11, 13).

******

Aí, pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore [...]. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, [...] e se ria para mim. Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele. [...]. Aquilo ia dizendo, e [...] // [...] eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobejo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo de que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira – só meu companheiro amigo desconhecido. [...]. Senti, modo meu de menino, que ele também se simpatizava a já comigo.

[...]. Disse que ia passear. [...]. Me perguntou se eu vinha. Tudo fazia com um realce de simplicidade, tanto desmentindo pressa, que a gente só podia responder que sim. Ele me deu a mão, [...] // [...] e nós escolhemos [...]. Era uma mão bonita, macia e quente, agora eu estava vergonhoso, perturbado. [...]. Eu não sabia nadar. [...].

[...]. Foi o menino quem me mostrou. [...]. Não me esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder deslembrar? [...]. Ele, o menino, era dessemelhante, já disse, não dava minúcia de pessoa outra nenhuma. [...]. Eu queria que ele gostasse de mim.

[...].

[...]. Eu tinha o medo imediato. E tanta claridade do dia. [...]. Alto rio, fechei os olhos. [...]. Quieto, composto, confronte, o menino me via. – “Carece de ter coragem...” – ele me disse. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei nadar...” O menino sorriu bonito. Afiançou: – “Eu também não sei.” Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz. – “Que é que a gente sente, quando se tem medo?” – ele indagou, mas não estava remoqueando; não pude ter raiva. – “Você nunca teve medo?” – foi o que me veio, de dizer. Ele respondeu: – “Costumo não...” – e, passado o tempo dum meu suspiro: – “Meu pai disse que não se deve de ter...” Ao que meio pasmei. Ainda ele terminou: – “... Meu pai é o homem mais valente deste mundo.” Aí o bambalango das águas, a avançação enorme roda-a-roda – o que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi aquele rio. Aquele, daquele dia. [...]. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, desse a minhas carnes alguma coisa. Era uma mão branca, com os dedos dela delicados. – “Você também é animoso...” – me disse. Amanheci minha aurora. [...].

[...]. Aonde o menino queria ir? [...].

[...].

[...].– “Você é valente, sempre?” – em hora eu perguntei. [...]. Dando fim, sem me encarar, declarou assim: – “Sou diferente de todo o mundo. Meu pai disse que eu careço de ser diferente, muito diferente...” E eu não tinha medo mais. Eu? O sério pontual é isto, o senhor escute, me escute mais do que eu estou dizendo; e escute desarmado. O sério é isto, da estória toda – por isto foi que a estória eu lhe contei eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita coisa importante falta nome.

[...].

[...]. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.

______
[1] A citação de uma de minhas histórias por meio de algumas das citações de “Grande Sertão: Veredas”.

Referências:

COMPAGNON, Antoine. (1979). O trabalho da citação. Tradução: Cleonice P. B. Mourão. Belo Horizonte, Editora UFMG, 1996.

ROSA, João Guimarães. (1938). Grande sertão: veredas. 22. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Lendo, de E. Brum, “Escola sem pinto”

Muito oportuna a problematização assumida por Eliane Brum, em sua coluna no El País, sobre “a tentativa de censura a um livro didático no norte do país”. Sobretudo, pela tese que, claramente exposta e defendida, serve-lhe de subsídio para tal. Além disso, parabenizo o espaço de resposta por ela concedido a uma das autoras da obra posta em polêmica, a Prof. Dra. Mônica Waldhelm, que, com estas assertivas, dentre outras, nos adverte, professores, sobre o nosso papel no Brasil atual: 

De novo estamos de volta à tragédia da educação. E agora ela ecoa para muito além dos muros das escolas. A ignorância não é apenas uma tragédia, mas um instrumento. E, no Brasil, este instrumento nunca foi usado de forma tão articulada como hoje.
[...].
[Assim posto,] [...] reforço e valorizo a necessidade de um movimento de resistência organizado e coletivo – e portanto com mais impacto e eficiência – por parte dos educadores, frente às recentes e sistemáticas ações que buscam tirar a autonomia docente e isolar a sala de aula e a escola da vida real, alijando os alunos do debate acerca de questões contemporâneas cada vez mais relevantes. A busca por uma sociedade pautada na solidariedade, na alteridade, na justiça social, no respeito e na convivência pacífica passa pelo reconhecimento da diversidade como positiva. Questionar as muitas formas de preconceito e de exclusão social é papel de uma escola que pretende ajudar a construir um Brasil menos sexista, menos racista e menos homofóbico – e isso deve começar na Educação Infantil.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A resistência de Luiz Costa Lima, para que tenhamos um eixo

Todas as “Anotações, memórias e planos da resistência” de Luiz Costa Lima registrados por Schneider Carpeggiani, na atual edição do Suplemento Pernambuco (jan. 2017), são destacáveis – sobretudo, ao ilustrarem o seu combate político ao que denomina “conservadorismo analfabético nacional”, esse comportamento no qual se constata a ausência da “tradição do pensamento” ou, não obstante, a presença de um “pensamento redundante” (aquele que louva). E, entregam-nos, por assim dizer, ao desafio da harmonização entre “o tempo em que se deveria cumprir uma certa experiência e seu efetivo cumprimento”. Acreditam? Eis um aperitivo (na verdade, o meu – o segredo está em descobrir o próprio alimento e fazê-lo comida):

[...]. A poesia pede para não ser considerada por quem não a considera. Ela está a favor da sua própria recusa. Não recusar a poesia significa pensar muito sério. Pensar poesia é um ato de resistência muito forte, porque é um pensamento forte, tão intenso quanto teoria física. [...].

Referência:

CARPEGGIANI, Schneider. Anotações, memórias e planos da resistência [de Luiz Costa Lima]. Suplemento Pernambuco, Recife, n. 131, p. 8-13, jan. 2017. Disponível em: <http://www.suplementopernambuco.com.br/ima…/…/PE_131_web.pdf>. Acesso em: 31 jan. 2017.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Garimpar é preciso

Primeiro: Millôr me tem, com o seu humor epifânico, porque fincado em nossa matéria de perdição / salvação, assim como as diversas representações artísticas de São Jorge, uma das insígnias de minha família. Segundo: volta e meia, vejo-me preso ao garimpo de peças como esta nas edições que já remontam algum tempo de revistas e/ou jornais brasileiros de grande circulação, extintos ou não. Terceiro: de repente, senti a urgência de (re)aprender a enxergar.


A propósito da fonte: Revista Veja (edição de 25/12/1968, p. 5).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Assistindo à Bones (Temporada 10: Ep. 7) e lhe devendo uma cerveja – riso!

[...]
Bones: Imagino o que você [...] [deva estar sentindo].
Aubrey: Isso é problema meu. Não precisa...
Bones: Eu sei. [...] [Também experimentei algo semelhante]. Senti raiva por anos.
Aubrey: E como superou?
Bones: Não superei.
Aubrey: Esta não é uma conversa de consolo.
Bones: Não. A dor sempre vai existir. O desafio é não tentar fazê-la desaparecer.
Aubrey: Não é reconfortante.
Bones: Lutar é o problema. Lutamos para tentar mudar o passado ou esquecê-lo. Mas a dor faz parte de quem somos. É como a descoberta do quark. Foi uma reviravolta total nas teorias físicas. Houve fúria, houve briga, mas era verdade. E quando foi finalmente aceita, nos deu melhor compreensão da vida. Se a tivéssemos negado, não teria havido progresso.
Aubrey: Foi uma analogia muito inteligente.
Bones: Porque sou muito inteligente. Não é fácil, Aubrey, mas... Nada de valor é fácil.
Aubrey: Obrigado.
Bones: Eu deixei a carteira no trabalho. Talvez queira me pagar uma cerveja por agradecimento.
Aubrey: Eu gostaria muito.
Bones: Foi o que achei.
[...]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Estórias

Esses vídeos a mim dizem muito, principalmente quando inter-relacionados, e de tal modo, que eu também preciso cantá-los:
  1. Susan Boyle, no Britain's Got Talent (2009), interpretando “I dreamed a dream”;
  2. Jonathan Allen, no America's Got Talent (2013), “Con te partirò”;
  3. Alice Fredenham, no no Britain's Got Talent (2013), “My funny valentine”; 
  4. Calum Scott, no Britain's Got Talent (2015), “Dancing on my own”;
  5. Christian Burrouws , no The X Factor UK (2016), uma música de sua autoria;
  6. Beau Dermott, no Britain's Got Talent (2016), “Defying gravity”.

A ordem cronológica talvez me livre de explicar porque essa sequência me é tão particular.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Morre-se de Brasil, também

Dizia, um de meus professores prediletos, ter morrido, Lima Barreto, de Brasil. Ao que, desde então, tenho tentado verificá-la, essa tese, (re)descobrindo tal autor, um/o "fora da curva", na perspectiva de Schwarcz. Muito recentemente, inclusive, através de "Sátiras e outras subversões: textos inéditos" – obra póstuma, organizada por Felipe Botelho Corrêa, de cujos textos destaco "Providências governamentais":

“A reunião do ministério foi naquele dia secreta, isto é, não foi anunciada nos jornais. Especialmente convidados, compareceram também, com o informante, o prefeito de polícia e o inspetor dos detetives (aguazil-mor).
El-Rey Pechisbeque abriu a sessão fazendo um gesto de quem ia colher o manto de arminho, crivado de abelhas merovíngias, e depositou em cima da mesa uma magnífica “Santa Luzia” de cinco olhos, todos eles com incrustações de marfim e ouro. Era o seu cetro característico de Carlos Magno com que figurava os seus retratos pululantes.”

O desfecho dessa história parece prenunciar o nosso próprio desfecho, enquanto país.

Referência:

BARRETO, Lima. Providências governamentais. In: ______. Sátiras e outras subversões: textos inéditos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2016. p. 86-88.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

“A literatura é apresentada na escola como velha, chata e obrigatória", dizem

Um perigo, penso eu, defender a tese de que “A literatura [ou] é apresentada na escola como velha, chata e obrigatória” ou, simplesmente, não é apresentada. Primeiro, porque precisamos nos perguntar: qual literatura, em que escola, e por quê? Modos são sempre vários, alguns coincidentes – para o bem ou para o mal; neste caso, favorecedores da formação de um leitor literário que oscila entre o comum e o incomum. Segundo, devido à singularidade do trabalho de resposta a essas perguntas, que, se levado a sério, opõe-se, invariavelmente, à indução de ideias generalizantes como a que se coloca. A partir de minha experiência enquanto professor de Língua Portuguesa, nos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, por exemplo, percebo outros obstáculos, e impostos a um empreendimento anterior ao do letramento literário: o da formação leitora e escritora do sujeito, que, às vezes, ou na maioria delas, não se sabe sócio-histórico-cultural. A começar por aqui, por essa constatação, talvez o nosso trabalho seja mais fundo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A literatura me abre os olhos

[...]. Se tivesse a tolice de se perguntar ´quem sou eu?´ cairia estatelada e em cheio no chão. É que ´quem sou eu?´ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. (LISPECTOR, 2006, p. 15).

Referência:

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2006, p. 15.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ler e escrever (literatura)

Especialmente, aos professores que assumem essa lida

Acredito mesmo na leitura e na escrita enquanto metonímias da inclinação do sujeito sócio-histórico-cultural à interpretação de si e do mundo, e de sua urgência em transformar a ambos. Numa interdependência que se sabe relativa, quando da associação do exercício escritor ao leitor. E, por isso, na ação docente para favorecer esses dois movimentos sem, no entanto, distanciá-los. Agradecendo, é claro, a Gustavo Bernardo, por tais lições, sobretudo em “Ler é preciso assim como ser livre é preciso” e “Espelho”. É sua a crença, por exemplo, de que os livros nos servem principalmente como espelho; entregando-nos um vazio abissal, a partir do qual, cada um, ao seu modo, busca preenchê-lo. Pois, como nos adverte, “Dizem que as perguntas fundamentais são quatro. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Afinal de contas, o que estou fazendo aqui?” (BERNARDO, 2010). Ao menos, para que não se precise fazer elogio à superficialidade. Porque, sim, “[...] somos condenados à leitura.” (BERNARDO, 2002). Digo, por extensão, que literatura, o seu estudo, a sua leitura, tem que arder. Concordam?

Sobre o segundo texto, a propósito, lancei esses desafios aos meus alunos da 3ª série do Ensino Médio, aguardando ansiosamente por sua resposta:
  1. Se irrespondíveis como sugere Gustavo Bernardo, as quatro perguntas fundamentais à existência humana justificam-se de que modo? Demonstre.
  2. O que experimentariam aqueles obstinados em respondê-las, na perspectiva do autor? Explique.
  3. Como você responderia a cada uma delas?
  4. Esclareça a metáfora do espelho nesse contexto. Para isso, considere a seguinte passagem: “O primeiro livro que a gente lê é um dos primeiros espelhos”.
  5. “Ler é um movimento externamente passivo [...]. Escrever, por sua vez, [...] ativo [...]”. Justifique, discutindo a relação entre leitura e escrita apontada pelo autor.
  6. Segundo Gustavo Bernardo, o que leva as pessoas a ler e a escrever? Quais os benefícios desses esforços e por que se pode afirmar como sua direção a do espelho? Problematize.
  7. As concepções de leitura e de escrita defendidas no texto sob análise coincidem com aquelas por você formuladas ao longo de sua escolarização? Compare-as.
  8. Ler para entender o mundo e escrever para transformá-lo: assim você o faz? Analise.


Referência:

BERNARDO, Gustavo. Ler é preciso assim como ser livre é preciso. In: SERRA, Elizabeth D’Angelo (Org.). Ler é preciso. São Paulo: Global, 2002. p. 131-137.

______. Ato: espelho. In: ______. Redação inquieta. São Paulo: Rocco, 2010.

Quem diz a literatura

Revela-me, o Instituto Camões, estar lendo, Sophia de Mello Breyner Andresen, um fragmento de sua Arte Poética [III], texto divulgado pela autora em “11 de julho de 1964, no almoço de homenagem promovido pela Sociedade Portuguesa de escritores, por ocasião da entrega do grande Prêmio de Poesia, atribuído a ‘Livro Sexto’” – inclusive, de fácil localização na Internet. Embora o vídeo, pelo que se confirma no CINEPT – Cinema Português, seja um trecho de um curta-metragem de 17 min, produzido em 1969 por João César Monteiro, e estreado em 1972. De todo modo, vale o compartilhamento.

Sobretudo por uma passagem que me prova precisarem, sim, os nossos alunos, de nossa ajuda, seus professores de língua portuguesa (e literatura), para olhar esse mar (a poesia, a arte) que ainda não “conhecem” – tal como Diego de seu pai, Santiago Kovadloff, nas palavras que Eduardo Galeano registra n’O livro dos abraços como “A função da arte/1”. Ei-la:

A coisa mais antiga de que me lembro [...] [não] era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. [...]. [...] faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida [a obra de arte]. [...]. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor. E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. [...]. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. [...]. Eis-nos aqui reunidos [...].

sábado, 30 de julho de 2016

De Alcides Villaça, "Drummond sem paredes"

Numa das cartas a Mário de Andrade (mas qual, mesmo?) assegura-lhe o amigo Carlos que é com uma caneta na mão que vive suas maiores emoções. Comentando isso com um jovem aluno, entrevi sua discreta expressão de piedade por aquele poeta sitiado e infeliz, homem de gabinete, gauche mineiro que não se atirou à vida. Não tive como lhe dizer, naquele momento, que entre as tantas formas de se atirar à vida está a de se valer de uma caneta para perseguir e achar as falas humanas mais urgentes e precisas, essenciais para quem as diz, indispensáveis para quem as ouve, vivas para além de uma vida.

Referência:

VILLAÇA, Alcides. Drummond sem paredes. Facebook, página pessoal de Alcides Villaça, 30 jul. 2016. Disponível em: <https://goo.gl/wbsgtp>. Acesso em: 30 jul. 2016.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

"Mundo da lua"

Vontade de chorar tudo o que li, ou esta minha imagem refletida em um espelho! Vontade me abraçar!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

"Os livros são objetos transcendentes"

SOCIEDADE 
É deveras difícil dizer qualquer coisa sobre a sociedade da Bruzundanga. É difícil porque lá não há verdadeiramente sociedade estável. [...].
[...].
Uma tão vulgar preocupação pauta toda a vida intelectual da sociedade bruzundanguense, de modo que [...] o tema geral dos comensais é a política [...].
A política não é aí uma grande cogitação de guiar os nossos destinos [...].
Sendo assim, todas as manifestações de cultura dessa sociedade são inferiores. [...].
[...]. As obras mais notáveis que lá têm aparecido são escritas por homens que vivem arredados da sociedade bruzundanguense.
Em uma sala desse país, quando não se trata de intrigas políticas ou coisas frívolas de todos os dias, surge logo um tédio inconcebível. Ele sepulta o pensamento, antes de matá-lo: enterra-o vivo. Mereceria detalhes, mas só fazendo romance ou comédia.
[...].
Incapaz [, a gente da Bruzundanga, ] de fazer aparecer no seu seio razoáveis manifestações intelectuais, ela é ainda mais incapaz de apoiar as que nascem fora dela.
[...].
Tudo lá é conforme a moda. [...].
[...].
Referência:

BARRETO, Lima. Os bruzundangas: a sociedade [fragmento]. 4. ed. São Paulo: Ática, 2011. p. 81-84.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A Marisa Monte que me abraça

17 músicas de Marisa Monte me abraçam, entre aquelas componentes de seus 9 discos lançados, individualmente, de 1989 a 2014. Mas, não 17 canções distintas ou, apenas, 17: enquanto "Segue o seco", de Carlinhos Brown, apresenta-me dois caminhos que eu decidi seguir (o primeiro, no álbum "Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão", de 1994, e o segundo, em "Barulhinho bom", de 1996), diferentemente de "Beija eu", que eu prefiro em Barulhinho; muitas delas, compostas pela própria cantora (12 das 17), e outras tantas, por Nando Reis ("Diariamente"), Caetano Veloso e Gilberto Gil ("Panis et circenses") ou, ainda, Carlinhos Brown (agora, com "Perdão você"), a mim, dizem muito; sobretudo, a respeito de como nascemos para as mesmas histórias, em livros e/ou canções, sobre como morremos, todos, por um mesmo abraço, à espera de um Arnaldo Antunes que se meta em nós, também para recitar não qualquer trecho de "O primo Basílio", mas aquele de quando Amor I love you:

[...]. tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! (De Eça de Queirós, fragmento de "O primo Basílio")

Noutro dia, [-] Perdão [,] você [!], ei de lhe explicar porque "Água também é mar" ou "O que você quer saber de verdade, essa minha história".

***

Minhas músicas em um Monte: 

Mais (1991)
          1 Diariamente
Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão (1994)
          2 Segue o seco
Barulhinho bom (1996)
          3 Panis et circenses
          4 Beija eu
          5 Segue o seco
Memórias, crônicas e declarações de amor (2000)
          6 Amor I love you
          7 Perdão você
          8 Gentileza
          9 Água também é mar
Infinito particular (2006)
          10 Infinito particular
          11 Vilarejo
          12 Pra ser sincero
O que você quer saber de verdade (2011)
          13 O que você quer saber de verdade
          14 Depois
          15 O que se quiser
          16 Ainda bem
          17 Seja feliz

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A minha história entre as de Valter Hugo Mãe

Talvez seja esta a minha história entre as de Valter Hugo Mãe, ou não. Mas, as suas antíteses ou paradoxos (mágoa/ternura, morte/quietude), alguns de seus aforismos ("Os santos aparecem, os demónios assombram"), além de certas prosopopeias e, principalmente, metáforas ("Era tudo velho. A gente, os sonhos, os medos e as montanhas."), arrebatam-me de um modo que eu, ainda, estou tentando compreender. Vejam-no:
[...].
Podia ser que eu estivesse ainda mais magra por ter ficado vazia dos poucos gramas que pesava a alma. A minha mãe chamava-me estúpida. Perguntei-lhe que sentido encontrava na vida. O que andaríamos ali a tentar descobrir. Mas ela nunca o saberia. Surpreendeu-me com a profundidade da questão. [...]. Magoávamo-nos, acreditava eu, sempre por causa da ternura. Como que a reclamá-la enquanto a perdíamos de vez.
Mais tarde, ouvia-a alertar o meu pai. Em alguns casos de morte entre gémeos o sobrevivo vai morrendo num certo suicídio. [...].
[...]. Não queria morrer. Estava entre matar e morrer, mas não queria uma coisa nem outra. Queria ficar quieta.
Repeti: a morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco.
[...]. Obrigada a andar cheia de almas, eu era um fantasma. [...]. As nossas pessoas olhavam-me sem saber se viraria santa ou demónio. Os santos aparecem, os demónios assombram. (MÃE, 2014, p. 9-13).
REFERÊNCIA

MÃE, Valter Hugo. A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 9-13.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O que não faz um homem com a própria língua?

Em seu perfil / canal do Youtube (“Tomada de Voz”), Fabrício Carpinejar não compartilha, apenas, alguns dos seus textos literários, mas o próprio movimento que empresta a eles, ou vice-versa, e, talvez, o nosso mesmo. “Em Tomada de Voz”, a palavra corre... Na criação por mim destacada (“O amor não é pros fracos”), a título de exemplo, como não girar, e girar, em torno do “Amor [...] que fica depois de ir embora”? É claro que eu sei... Há outras histórias, sim! Pelo menos, “Até [se] acertar a companhia”, como o poeta sugere... Mas, fiquemos com o abraço de agora! O que acham?

De Fabrício Carpinejar,
Amor é o que fica

De Fabrício Carpinejar,
Até acertar a companhia

sábado, 15 de agosto de 2015

De Christy Wampole, "O manifesto do congresso (acadêmico)"

Estamos fartos de congressos acadêmicos.
Somos humanistas que reconhecem pouquíssima humanidade na forma e no conteúdo dos congressos.
Temos ouvido com paciência e educação comunicações lidas linha após linha, em voz monótona, por um orador que não levanta os olhos uma vez sequer. E temos pensado se não seria melhor ler o paper antes, sozinhos, prestando muito mais atenção ao que está sendo dito.
Temos tentado ignorar a falta de uma tese ou mesmo de uma frase interessante ao longo da comunicação de vinte minutos.
Temos assistido, boquiabertos, oradores que tentam espremer em vinte minutos uma conferência que duraria meia hora, lendo rápido demais para serem entendidos.
Temos sido um daqueles dois conferencistas numa mesma mesa de debates.
Temos sofrido em silêncio enquanto alguém ocupa toda a sua fala simplesmente listando os momentos em que determinado tema aparece em um romance.
Nossos rostos têm se contorcido quando colegas se comportam como se tivessem entendido o academiquês de um conferencista.
Temos prestado atenção nos primeiros cinco minutos de uma comunicação, tempo suficiente para pinçar uma palavra em torno da qual construiremos uma pseudopergunta para a sessão de “perguntas da plateia”.
Temos pedido a debatedores que “falem um pouco mais sobre isso”, “desenvolvam aquilo” ou “explicitem isso um pouco mais”.
Temos ouvido nossos colegas fazerem perguntas relacionadas às próprias pesquisas e que só têm relevância para eles mesmos.
Temos mandado ou recebido bilhetes durante uma sessão particularmente penosa dizendo: “Quero morrer”.
Temos criado intimamente uma taxonomia dos vários tipos de conferencistas: o contestador, o animador de auditório, o desenturmado, o cabeção, o citador compulsivo, o conformista, a xerox do orientador, o carinha da filosofia.
Temos enchido nossos caderninhos com rabiscos e respondido a e-mails desimportantes enquanto estamos na plateia de um debate.
Temos roído as unhas contando as cadeiras vazias da sala.
Em congressos nacionais, só temos assistido à nossa própria fala, passando o resto do fim de semana no bar da piscina, onde de certa forma se aprende mais sobre as chamadas liberal arts.
Temos pensado em patentear um bingo para congressos em que os jogadores na plateia recebem cartões quadriculados com várias palavras do vocabulário acadêmico, que devem ser marcadas quando ditas pelos conferencistas – “subsemântico”, “dialético”, “normatividade”, “mitopoético”, adjetivações a partir do nome de filósofos (derridiano, deleuziano) e os “pós-” alguma coisa.
Temos sonhado com o momento em que, como num vaudeville, uma bengala gigante surgirá dos bastidores para arrancar do púlpito o conferencista tedioso.
Temos pensado: “Se é isso que as Humanidades se tornaram, será que deveriam continuar a existir?”
****
Congressos acadêmicos são um hábito do passado, acolhido pela Administrativersidade como forma de exibir conhecimento e aumentar a produtividade com a publicação das atas do que é dito ali. Temos sido cúmplices. Até hoje.
Achamos que está na hora de nos perguntarmos: qual o objetivo dos congressos? O que nos levou a organizá-los, ano após ano, sem questionar seus fundamentos? Existe outro modo de reformatar o congresso ou mesmo de acabar com ele, substituindo-o por algo mais satisfatório para todo mundo dos pontos de vista intelectual, profissional e social? Quais nossas reais motivações para organizar um congresso? E para participar de um deles? Para lustrar os currículos? Para conhecer pessoas? Para nos atualizarmos sobre o que está sendo feito em nossa área?
Se, como muitos professores confessam em particular, o congresso é uma forma fácil e conveniente de encontrar todos os amigos ou conhecer novos colegas, não deveríamos substituí-lo por uma reunião menos formal? Algo como um salon philosophique que durasse três dias? Ou grandes grupos de trabalho? Um encontro para paquerar, tipo speed-dating, ou um retiro para montanhistas? Por que um estudante deveria pagar centenas de dólares – frequentemente do próprio bolso – por passagem de avião e hotel para terminar falando diante de três pessoas, duas delas amigos que ficaram sabendo da comunicação na noite anterior, no quarto do hotel? Se alguém acha que os congressos são uma instância legítima, por que todos sempre voltam resmungando, num estado de espírito que vai da decepção ao ódio?
Sabemos que é um assunto delicado. Os congressos parecem necessários, mas seus objetivos não são claros. Têm grande potencial para ajudar a revitalizar as Humanidades, mas ainda não se mostraram à altura desse potencial. Sabemos que não estamos falando por todo mundo. Alguns professores adoram congressos. Adoram o ritual descrito anteriormente. No entanto, percebemos uma impaciência cada vez maior entre muitos deles, que reviram os olhos e suspiram nas conversas pós-congressos. Por isso apresentamos este tema como um tópico de discussão.
Não esperamos que o sistema dos congressos mude de uma hora para outra. Enquanto isso, humildemente submetemos o seguinte contrato, que pode ser distribuído para seus conferencistas antes do próximo encontro. Para ser aceito no congresso, o conferencista teria de ler e assinar um termo em que se compromete com as seguintes regras:
1. Estou ciente de que o paper apresentado deve ter uma função que não pode ser satisfeita por um artigo. Uma vez que o congresso envolve contato direto e em tempo real com outros seres humanos, o orador deve aproveitar esta oportunidade rara e, portanto, preciosa, para interagir efetivamente com outros professores.
2. Não lerei meu paper linha a linha, monocordicamente, sem olhar para o público. Não tenho necessariamente que recorrer a um imperativo de entretenimento – como contar piadas e anedotas ou mostrar slides animados –, mas me empenharei para manter certa compaixão com meu atento público.
3. Estou ciente de que uma lista não é uma conferência. Não farei simplesmente uma lista de ocorrências de um tema em um determinado corpus.
4. Defenderei uma tese e, se não tiver uma, terei pelo menos um motivo para justificar a existência da minha fala.
5. Farei o mínimo de citações literais possível, sem me amparar nelas para ocupar o tempo. Estou ciente de que os membros da plateia tremem diante de grandes blocos de texto no PowerPoint ou no resumo impresso que é distribuído.
6. Na sessão de perguntas, não farei uma pergunta irrelevante apenas para ser visto fazendo uma pergunta. Se minha questão for hiperespecífica e sem sentido para qualquer pessoa além de mim, conversarei depois, pessoalmente, com o conferencista.
7. Não farei uma afirmação com ponto de interrogação no final, para que soe como uma pergunta.
8. Se eu fizer uma pergunta para valer, a) não levarei mais de um minuto para fazê-la e b) farei a pergunta da forma mais educada possível, mesmo se discordar do conferencista.
9. Respeito o tempo dos colegas que vieram me ouvir falar. Farei o máximo para ser o mais claro e sucinto possível, de modo que a presença deles valha a pena.
10. Estou ciente de que, se desobedecer a estas recomendações, serei cúmplice da morte das Humanidades.
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CHRISTY WAMPOLE é professora assistente do departamento de francês e italiano na Universidade de Princeton e acaba de lançar a coletânea de ensaios The Other Serious: Essays for the New American Generation. Este ensaio foi publicado originalmente no blog Opinionator, do New York Times, onde também saíram “Como viver sem ironia” e “A ensaificação de tudo”, traduzidos no site da revista serrote. 

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Referência:WAMPOLE, Christy. O manifesto do congresso (acadêmico). Tradução: Paulo Roberto Pires. Serrote, ago. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/CvfxPD>. Acesso em: 15 ago. 2015.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

De que vale o poeta? Quanto vale o poema?

Quando o Bruxo do Cosme Velho morreu, Euclides da Cunha (1908 apud CARVALHO, FILHO, FRANCO, 2009, p. 199-202) não só lamentou o "triste desenlace da sua enfermidade", responsável pelo cerramento de "40 anos de literatura gloriosa"; mas, defendeu a ideia de que "um escritor da estatura de Machado de Assis só deveria extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional", diferentemente do ocorrido em tal ocasião. 

Segundo o autor de “Os sertões”, “era pelo menos desanimador tanto descaso da cidade inteira [, em meio ao referido falecimento], sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de sua existência complexa”; e, imprescindível, portanto, que alguém transfigurasse um desalento como esse no fastígio de um estado moral – algo realizado, àquela época, por Atrojildo Pereira, um “anônimo juvenil”, até então. 

E eu, que não sei aonde chegar com todas essas palavras, lembro-me, hoje, de Hugo Friedrich (1991, p. 11) já nos apresentando, de igual modo, no século anterior, somente “os poetas [...] [enquanto] pessoas sensíveis, zelosas de sua originalidade e seus admiradores [...] [, capazes de alentarem] esta sensibilidade”; além de Terry Eagleton (2006, p. 15), para o qual “a literatura [...] [, numa sociedade como a nossa,] deixou de ter grande função prática”.

Talvez por isso, inclusive, estejam mortos, por exemplo, Manoel de Barros (13/11), Ariano Suassuna (23/07), João Ubaldo Ribeiro (18/07) e Ivan Junqueira (03/07). Mortos, ou faltos de vida. Mortos, ou sem movimento. Mortos, ou faltos de gente. Mortos, ou pálidos, esmaecidos, desbotados. Mortos, ou faltos de vigor, de vivacidade, de brilho. Mortos, ou extremamente cansados; exaustos. Mortos, ou extintos, apagados. Mortos, ou que caíram em desuso, não têm mais validade, circulação ou curso. Mortos, ou sequiosos, ávidos. 

Outros também morreram.

Referências:

CUNHA, Euclides da. A última visita. In: CARVALHO, José Murilo de; FILHO, Venancio Filho; FRANCO, Affonso Arinos de Mello (Org.). Trabalhos esparsos de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: ABL, 2009. p. 199-202.

EAGLETON, Terry. Introdução: o que é literatura? In: ______. Teoria da literatura: um introdução. Tradução: Waltensir Dutra. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 1-24.

FRIEDRICH, Hugo. Perspectiva e retrospecto. In: ______. Estrutura da lírica moderna: da metade do século XIX a meados do século XX. Tradução do texto: Marise M. Curioni. Tradução das poesias: Dora F. Da Silva. 2. ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1991. p. 15-34.

domingo, 6 de abril de 2014

Não é uma justificativa



Há muitos anos (isto, também, porque o tempo não é o que nós entendemos por ele), eu descobria "A festa" das palavras ou a encobria, não sei bem (já que, sobre esse mesmo tempo, são indubitáveis, somente, sua existência e força)... Há muitos anos. Não em 1987! Porque dizer ou ouvir é um mistério. E como tal não se presta a um porquê.

quarta-feira, 5 de março de 2014

De Clarice Lispector, "Sem nosso sentido humano"

Como seriam as coisas e as pessoas antes que lhe tivéssemos dado o sentido de nossa esperança e visão humanas? Devia ser terrível. Chovia, as coisas se ensopavam sozinhas e secavam, e depois ardiam ao sol e se crestavam em poeira. Sem dar ao mundo o nosso sentido humano, como me assusto. Tenho medo de chuva, quando a separo da cidade e dos guarda-chuvas abertos, e dos campos se embebendo de água. (LISPECTOR, 1999, p. 205).

Referência: 

LISPECTOR, Clarice. Sem nosso sentido humano. In: ______. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 205.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Um professor e as "novas eras"

Afinal, com o que, ou quem, “Não se deve ser crítico demais”?

“As novas eras”, ou um tempo no qual também se ensina e aprende, além de se desejar fazê-lo, são sempre uma confusão só. Até mesmo por causa do homem que lhes abre um, dois ou três caminhos e com o qual “Não se deve ser crítico demais”. Vivê-las é uma questão de poesia, ou de Brecht (2012, p. 25, 294):

As novas eras

As novas eras não começam de uma vez
Meu avô já vivia no novo tempo
Meu neto viverá talvez ainda no velho.

A nova carne é comida com os velhos garfos.

Os carros automotores não havia
Nem os tanques
Os aeroplanos sobre nossos tetos não havia
Nem os bombardeios.

Das novas antenas vêm as velhas tolices.
A sabedoria é transmitida de boca em boca.


Não se deve ser crítico demais

Não se deve ser crítico demais.
Entre sim e não
Não é tão grande a diferença.
Escrever no papel em branco
É uma coisa boa, e também
Dormir e comer à noite.
A água fresca na pele, o vento
As roupas agradáveis
O ABC
A defecação.
Falar de corda em casa de enforcado
Não é apropriado.
E na lama
Ver uma clara diferença
Entre argila e marga
Não convém
Ah
Quem é capaz de imaginar
Um céu de estrelas
Esse
Bem poderia calar a boca.


Referência:

BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução: Paulo César de Souza. 7. ed. São Paulo: Editora 34. p. 25, 294.

domingo, 20 de outubro de 2013

Por que não (nos) lemos?

Caríssimos;

Ontem, descobri duas crônicas de Carlos Heitor Cony que, por sua temática, apresentam-nos, sobre seu narrador-personagem, a percepção do outro quanto as suas próprias dificuldades de aprendizagem e, por extensão de sentido, o modo como este se vê inserido, ou não, em determinadas situações de convívio social - a escola, a título de exemplo. 

Grosso modo, a partir desses textos, "O fogão e a chuva"¹ e "As mãos do homem"², um pensamento invadiu-me as horas: Saber-se quebrado, na mais feliz metáfora de Eliane Brum³, é experimentar, ante a singularidade de nossas lacunas e, por isto, de modo, inquestionavelmente, intenso, a marginalização social, ou alguns olhos que não veem (que não nos veem), outras mãos que não acolhem (que não nos acolhem): muitas vezes, os nossos próprios olhos, as nossas, também próprias, mãos. É buscar, ainda em tempo, um todo "especial" na escola. É partir.

Por que não (nos) lemos?

______
¹ CONY, Carlos Heitor. O fogão e a chuva. In: ______. Cony: crônicas para ler na escola. Apresentação: Marisa Lajolo. Rio de Janeiro: Fontanar, 2009. p. 45-49.

² CONY, Carlos Heitor. As mãos do homem. In: ______. Cony: crônicas para ler na escola. Apresentação: Marisa Lajolo. Rio de Janeiro: Fontanar, 2009. p. 83-85.

³ BRUM, Eliane. A menina quebrada. Época, São Paulo, 28 jan. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/n9we4Z>. Acesso em: 19 out. 2013.